sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Georgi Chicherin: homossexual, ex-aristocrata e bolchevique

[Texto originalmente publicado em http://blogconvergencia.org/?p=6518]
 
Nossa muito sofrida República Soviética passou por tanta coisa durante os últimos dois anos que, no espaço de um breve jornal de revisão, é possível apenas apontar os marcos mais importantes deste período. A história política das relações exteriores da Rússia Soviética nesses dois anos é uma trágica história de luta sem fim, inspirada por inúmeros inimigos que literalmente não deram nenhum descanso ao jovem regime dos trabalhadores e camponeses. […]
A revolução de novembro, o primeiro ato da revolução social mundial, colocou de uma vez o Governo Russo Soviético à frente do movimento revolucionário mundial como o mensageiro e a inspiração da revolução proletária.
[CHICHERIN, p. 3]
É assim que Georgi Chicherin começa o “breve” jornal (um pequeno livro de bolso). Quando ele sucedeu Leon Trotsky no posto de Comissário do Povo para as Relações Exteriores (uma espécie de Ministro do Exterior), não havia, na teoria marxista, qualquer elaboração sobre relações exteriores. Esta foi, portanto, a primeira publicação marxista dedicada ao assunto.
Chicherin mudou muito. Poucas pessoas acreditariam que ele havia sido um aristocrata religioso e moralista retornaria à Rússia em 1918 como um verdadeiro bolchevique. A complexa amizade que ele teve com Mikhail Kuzmin, o autor do primeiro romance russo sobre homossexualidade, mostra uma evolução do pensamento de Chicherin ao longo dos anos. Infelizmente, pouca atenção é dada pelos historiadores à sua homossexualidade (ou talvez bissexualidade). Os artigos e livros que citam isso se restringem a falar sobre Chicherin em um ou dois parágrafos no meio de um texto que tem outro foco. É como se sua sexualidade fosse irrelevante para sua vida política e vice-versa.
Mas não há dois “Georgis Chicherins”, isso é óbvio. Houve apenas um personagem histórico que se transformou ao longo do tempo, transformação esta que atinge tanto suas visões sociais e políticas quanto como ele encarava a sua sexualidade.

De religioso e moralista a materialista

Georgi Chicherin estudou história e linguagem na universidade de São Petesburgo a partir de 1886, onde conheceu Mikhail Kuzmin. Tornaram-se amigos íntimos. Chicherin foi uma forte influência na vida do amigo, levando-o a conhecer filosofia e aprender italiano e alemão [MALMSTAD, p. 16-8]. Após retornar à Rússia em 1897, Chicherin trabalhou no departamento de arquivos do Ministério das Relações Exteriores até 1903 [MEYENDORFF, p. 175].
Chicherin e Kuzmin “mencionam suas inclinações sexuais em suas cartas” [MALMSTAD, p. 19]. Naquele momento, Chicherin convenceu Kuzmin a confiar na “Providência Divina”, da necessidade de ter “sentimentos corretos” e da abstinência sexual, apresentando a ele o jesuíta Canon Mori [p. 33-6]. A falha de Kuzmin em encontrar uma cura o levou várias vezes a tentar cometer suicídio [cf. p. 47]. Com o tempo, Canon Mori percebeu que era incapaz de resolver as crises de seu devoto e exortou-o a buscar ajuda com um médico especializado em distúrbios nervosos [p. 41-2].
Toda pessoa LGBT que teve uma educação conservadora ou moralista carrega uma antítese dentro de si. Por um lado, sua consciência alienada que compreende que ser LGBT é pecado, doença ou anormalidade. Por outro, sua própria existência concreta, que expressa as características que são consideradas de LGBTs.
No caso de Kuzmin, essa antítese teve outros desdobramentos. A busca pela religiosidade e pela “cura” o levaria à seita dos velhos crentes, muito influente em sua região. Essa seita, que defendia os “velhos costumes” e rejeitava o presente, existia desde 1666 como uma reação à Reforma da Igreja Ortodoxa Russa. Por outro lado, como a principal inspiração de Kuzmin eram suas fortes paixões por outros homens, ele passou a entender que seu trabalho criativo era um pecado [cf. p. 66]. Essa antítese fica explícita em seu relato de 1901 [p. 63].
Já Chicherin foi para a direção oposta. Em sua carta de agosto de 1901, afirmo que, apesar de compreender como os velhos crentes atraiam a Khuzmin, este estaria enganando a si mesmo em pensar que ele poderia ser algo além de um “cidadão naturalizado”. Chicherin comparou-o a dois hegelianos russos que “viam o niilismo, o revolucionismo e o materialismo como sintomas da doença da sociedade europeia ocidental” [p. 52].
Já em 1904, Chicherin escreveu uma carta que mostrava que sua concepção deu um passo adiante. Chicherin percebia que a busca de Khuzmin por uma “nova arte” era uma rejeição dos valores de sua época. Isso fazia parte do contexto social em que emergia na Rússia o movimento social democrático, que buscava o fim da ditadura czarista e que também ansiava, segundo ele, por uma “reavaliação dos valores” [p. 51].
Os registros dos anos seguintes mostram que Chicherin abandonou a visão moralista sobre a homossexualidade. Foi em 1906, quando estava em Berlim, que Chicherin fez uma crítica à obra “Asas”, que retratava um jovem homossexual que “saiu do armário”, como se tivesse ganhado asas. A crítica era sobre o excesso de disquisição “sempre sobre o mesmo assunto” e foi aceita pelo autor, que, em consequência, fez várias mudanças na obra [p. 96]. No mesmo ano, este publicou também as “Canções Alexandrinas”, que foram baseadas na coleção de poesias lésbicas e eróticas “Les Chansons de Bilitis” e retratava romances entre homens. Chicherin exaltou-as por sua grandiosa maestria e por retratar “o mais puro Kuzmin” [cf. p. 100].

De aristocrata a menchevique e, mais tarde, a bolchevique

Boris Chicherin, tio de Georgi, faleceu em 1904 e suas propriedades foram herdadas pelo sobrinho, que tornou-se muito rico. Entretanto, Georgi Chicherin envolveu-se com o Partido Socialista Revolucionário (que era muito influente entre os camponeses) e, por repúdio à riqueza e à propriedade privada, doou o que tinha em nome da Revolução. No mesmo ano, sua prisão iminente o obrigou a fugir para Berlim [ANDREYED, p. 76]. Em 1905, Chicherin tornou-se menchevique e inimigo de Lenin, assim permanecendo até 1914 [DEBO, p. 651].
No começo do conflito, Chicherin acreditava que a principal necessidade eram as revoluções democráticas nos países monarquistas e na Rússia czarista. Baseando-se na teoria marxista que explica que, em tempos de guerra, os socialistas deveriam apoiar o Estado cuja vitória mais ajudasse na causa da revolução socialista, defendia o apoio à Grã-Bretanha e à França, que eram, segundo ele, os países mais progressistas. Entretanto, os socialistas não deveriam apoiar o regime czarista, mas, pelo contrário, atuar para sua derrubada [p. 653].
Os artigos de do final de 1915 e começo de 1916 mostram uma mudança de posição. Conforme suas próprias palavras: “No curso da guerra defensiva, o capital inglês aproveitou-se dos sindicatos de trabalhadores para manter o poder em suas próprias mãos, enquanto mantinha-o longe das classes trabalhadoras. A política inglesa, com clareza ofuscante, revelou a ele [Chicherin] o papel da democracia, a forma mais refinada de dominação do capital” [p. 653]. Segundo ele, a guerra tinha origem imperialista e era mantida por capitalistas e monarquistas feudais para os seus próprios interesses de classe. A única forma de evitar esta guerra e as guerras futuras era a destruição do capitalismo e da monarquia feudal pelas classes dominadas dirigidas pelo proletariado. Entretanto, os imperialistas se apropriaram das organizações da classe trabalhadora e dos partidos social-democratas, que se tornaram “burocracias partidárias”. Com esta posição política, o velho menchevique já era um bolchevique em espírito [p. 653-4]. Do outro lado da Europa, num memorando de março de 1916, Lenin comentou que seu antigo adversário estava realizando um “grande serviço” a favor da causa internacionalista [p. 655].
A atuação política de Chicherin que obteve maior sucesso foi entre centenas de imigrantes russos, na maioria foragidos da ditadura czarista e da conscrição, contando com o apoio da militante suffragette Mary Jane Bridges-Adams em algumas ocasiões. Houve um acordo em 1916 entre os governos russo e britânico para que esses imigrantes fossem enviados de volta à Rússia ou que fossem conscritos ao exército britânico. A partir de um protesto em 13 de março de 1916, foi criado o Comitê dos Delegados dos Grupos Socialistas Russos em Londres. A partir da denúncia do czarismo e do governo britânico, campanha alcançou um público amplo não só na comunidade russa, mas também na população britânica. Como resultado, o governo suspendeu a decisão por seis meses [p. 656].
Por causa da crescente influência dos sovietes e de Chicherin, o governo britânico decidiu prendê-lo. Preso, teve contato limitado com conhecidos e as visitas de Bridges-Adams foram proibidas [p. 660].
Leon Trotsky, que era o Comissário do Povo para as Relações Exteriores, no dia 26 de novembro, enviou uma mensagem ao embaixador britânico George Buchanan, exigindo a libertação dos prisioneiros bolcheviques Chicherin e Petrov, afirmando que haviam ingleses engajados em atividades contrarrevolucionárias na Rússia e avisando que “a democracia revolucionária não pode aceitar que heróis valorosos definhem em campos de concentração na Inglaterra enquanto cidadãos ingleses não sofrem qualquer restrição no território da República Russa” [p. 660]. Diante da negativa do governo inglês, Trotsky emitiu uma ordem proibindo todos os ingleses que estavam na Rússia de saírem do país. Seu primeiro deputado, Ivan Zalkind, disse certa vez a um inglês que desejava um visto de saída: “Para lhe fornecer um visto nós precisamos consultar o camarada Chicherin – sem Chicherin, sem visto!” [p. 660-1]
Essa pressão política obteve sucesso. O acordo foi firmado em 10 de dezembro, mas foi apenas em 2 de janeiro de 1918 que Georgi foi notificado das negociações feitas por Leon Trotsky. No dia seguinte, após uma pequena festa de despedida feita por seus amigos, Chicherin embarcou no trem. Depois de 13 anos de exílio, finalmente retornaria pra casa.

De volta à Rússia Soviética

No começo do século XX, a criminalização da homossexualidade era comum entre quase todos os Estados Burgueses. O movimento homossexual ainda incipiente concentrava-se no Instituto Científico-Humanitário, na Alemanha, que reivindicava a revogação do parágrafo 175 que criminalizava a “sodomia”. Naquela época, a consciência sobre a necessidade de se combater o preconceito e a violência contra LGBTs era quase inexistente.
A Revolução de Outubro colocou a Rússia Soviética à frente de todos os principais países imperialistas com respeito aos direitos das mulheres e LGBTs. Logo nos primeiro meses, todo o Código Penal russo, com uma visão moralista herdada do czarismo e do catolicismo ortodoxo, foi descartado. O novo governo soviético pôs-se imediatamente a elaborar um novo Código Penal, promulgado em 1922, baseado em concepções mais modernas de criminalidade. No novo código penal, a criminalização da “sodomia” consensual entre adultos foi intencionalmente deixada de lado. A política bolchevique era a absoluta não-interferência do Estado Soviético nas questões sexuais. Tudo isso durou até 1933-34, quando a “sodomia” consensual foi novamente criminalizada pelo stalinismo como parte da política de perseguição aos homossexuais que já havia se iniciado sorrateiramente na segunda metade da década de 1920 [cf. HEALEY, 1993].
Lenin tinha muito respeito pelo novo Comissário para as Relações Exteriores. São inúmeras as cartas entre eles. Em 1919, ocorreu o Primeiro Congresso da Terceira Internacional Comunista, no qual Chicherin foi um dos cinco delegados russos. Ou seja, o fato de que Chicherin era homossexual não parece ter afetado essa relação de confiança.
No tempo em que permaneceu como Comissário, Chicherin manteve uma política contra o imperialismo e da opressão nacional. Defendia a “autodeterminação dos trabalhadores de toda nacionalidade”, abolição da “diplomacia secreta, rompendo de uma vez com as tradições imperialistas através da publicação dos tratados secretos como também pela renúncia de todos os acordos ditados pela política imperialista do regime czarista” [CHICHERIN, p. 3-4]. Com essa concepção, conseguiu criar acordos com países muçulmanos, em especial com o Afeganistão. Com isso, ele colocou em prática a máxima de Marx: “Um povo que oprime outros povos não pode ser livre”. Outro aspecto inédito das relações exteriores da recém-formada Rússia Soviética era o apelo para que os trabalhadores dos outros países se mobilizassem contra a intervenção militar imperialista no novo país soviético.
[O] movimento revolucionário gradual e crescente continuou avançando nos países da Entente e, por toda a Europa, as classes dominantes estão tomadas pelo medo conforme elas sentem a aproximação da revolução mundial. A imagem maravilhosa do ataque da reação mundial sobre a Rússia Soviética, a luta desesperada da última e sua defesa bem-sucedida inspira as classes trabalhadoras de todos os países. Este ano (1919), nós escrevemos menos notas aos governos, mas mais apelos às massas trabalhadoras. […] A cena da presente batalha entre dois mundo não tem precedentes na imensidade de suas proporções. […] A política externa da Rússia Soviética conforma-se mais e mais à batalha universal entre a revolução e o velho mundo.
[CHICHERIN, p. 35-36]
Durante seu trabalho como diplomata, Chicherin deparou-se com um grande obstáculo: a homofobia de Maxim Litvinov, um dos membros do Comissariado para as Relações Exteriores. Boris Bazhanov, secretário de Stalin de 1923 a 1928, relata que Chicherin e seu principal deputado, Maxim Litvinov, constantemente enviavam memorandos secretos ao Comitê Central do Partido Bolchevique criticando e xingando um ao outro. Litvinov afirmava que seu adversário era “pederasta, idiota, maníaco e anormal” [BAZHANOV, 1930 apud KOTKIN, 2014, p. 152]. Além de invejar seu adversário pelo seu posto e também das divergências políticas, Litvinov tinha especial aversão porque era homofóbico. Apesar disso, Maxim Litvinov permaneceu no posto e sucedeu Chicherin como Comissário para as Relações Exteriores em 1930.

A visita do velho amigo

Ao que tudo indica, as divergências políticas entre Chicherin e Khuzmin mantiveram-nos bastante distantes. Mikhail Khuzmin diversas vezes se opôs aos movimentos revolucionários, apesar de ter apoiado a Revolução de Outubro quando ela ocorreu.
Apesar da política bolchevique de não interferência nas questões sexuais, o clima homofóbico a partir de 1923-24 era crescente. Em junho de 1926 na “Gazeta Vermelha” (Krasnaya Gazeta), um longo artigo de Mikhail Padvo retratava a arte de Khuzmin como “burguesa” por causa das “poses e gestos eróticos” que foram emprestados das “operetas negras” [MALMSTAD, p. 337]. Sua carreira praticamente chegou ao fim nesse ano, junto com a política de liberdade artística que havia sido defendida por Lenin e também por Trotsky. Tudo isso representa um retrocesso gradual na política bolchevique que prevalecia no começo da década de 1920 [cf. HEALEY, 1993].
Chicherin não sabia disso. Em novembro de 1926, chegou em Leningrado e mandou avisar Khuzmin que queria que ele fosse visitá-lo. “Mieux veut tard que jamais,” começou dizendo. Eles conversaram sobre “artes, polêmicas, amizade, talento, diplomacia” e também sobre a fama que Khuzmin havia adquirido na Alemanha. Chicherin indagou Khuzmin sobre por que seu amigo estava escrevendo e publicando pouco [p. 340].
Desse relato, podemos tirar duas conclusões. Como Chicherin sabia sobre a fama que Khuzmin tinha nos grupos de homossexuais que estavam florescendo na Alemanha, significa que ele tinha algum contato com esses grupos, talvez também com o Instituto Científico-Humanitário. É possível que esse contato inclusive tenha ocorrido antes de 1917, quando viveu entre a Alemanha, a França e a Inglaterra. A outra conclusão é que Chicherin acompanhou, em alguma medida, os trabalhos de Khuzmin. Não vemos aqui um julgamento moral, muito menos uma repreensão como a que foi feita por Padvo. Muito pelo contrário, o velho diplomata queria que seu amigo continuasse a produzir.

Sobre a lenda de que Chicherin nunca aceitou sua homossexualidade

Existem poucas fontes sobre a homossexualidade desse importante bolchevique. Há um motivo para isso. Como parte da contrarrevolução stalinista, todas as discussões artísticas ou científicas sobre a sexualidade foram proibidas. Livros e textos sobre o assunto foram apreendidos pela NKVD (órgão que deu origem à KGB) ou queimados na década de 1930 [HEALEY, 2001]. Alguns artigos e rascunhos pessoais de Georgi Chicherin provavelmente ainda estão detidos pela polícia da Rússia [HEALEY, 1993, p. 45]. Chicherin também foi apagado da Enciclopédia da União Soviética e dos arquivos históricos do partido comunista soviético [MEDVEDEV, p. 202; MEYENDORFF, p. 173].
Devido à falta de mais evidências sobre a homossexualidade Chicherin, surgiu uma lenda entre os historiadores de que ele nunca aceitou sua sexualidade. Entretanto, existe uma única evidência, totalmente duvidosa, que aponta nesse sentido, e que inclusive entra em contradição com as evidências já apresentadas aqui. Todos os textos que fazem essa afirmação baseiam-se, direta ou indiretamente, em duas notas de rodapé do artigo de Alexander Meyendorff, primo de Chicherin. Entretanto, essas duas notas foram adicionadas pelo editor do artigo, Igor Vinogradoff, amigo pessoal de Meyendorff, e não pelo próprio autor. A primeira afirma que, na viagem de Chicherin a Berlim em 1904, “ele estava buscando uma cura para a homossexualidade que perturbava sua mãe e provavelmente distorcia sua própria personalidade” [MEYENDORFF, p. 175]. A segunda afirma que o termo “doença” no texto de Meyendorff era um eufemismo para a “homossexualidade e os sentimentos de culpa decorrentes dela” [p. 178]. O problema é que nem mesmo Meyendorff conhecia o pensamento do Chicherin, quanto mais o seu amigo, Vinogradoff. Por exemplo, em 1903, quando Chicherin apenas defendia o fim do czarismo e a renovação de valores, seu primo já o considera um “marxista radical” que já estava longe das visões da mãe [p. 174].
Como vimos, é provável que a primeira nota retrate um fato histórico, não só da homossexualidade de Chicherin, mas também de que ele tinha trejeitos (a “distorção na personalidade”). Já a segunda nota parece refletir, no máximo, uma opinião de Meyendorff. Chicherin foi à Berlim em 1926 e novamente em 1928 para tratamento de diabetes e polineurite (inflamação e degeneração dos nervos). Em seus últimos dias, passava por crises de loucura. Faleceu em 1936 de derrame cerebral [cf. POOLE, p. 90]. Esses fatos derrubam a única e frágil evidência apresentada de que Georgi Chicherin nunca aceitou sua própria sexualidade.

Bibliografia

Andreev, A. I. Soviet Russia and Tibet: The Debacle of Secret Diplomacy, 1918-1930s. Leiden: Brill, 2003.
Debo, Richard K. "The Making of a Bolshevik: Georgii Chicherin in England 1914-1918." Slavic Review 25.4 (1966): 651. Web.
Chicherin, G. Two Years of Foreign Policy the Relations of the Russian Socialist Federal Soviet Republic with Foreign Nations from November 7, 1917, to November 7, 1919. New York: Russian Soviet Government Bureau, 1920.
Healey, Daniel. "The Russian Revolution and the Decriminalisation of Homosexuality." Revolutionary Russia 6.1 (1993): 26-54.
Healey, Daniel. Homosexual Desire in Revolutionary Russia: The Regulation of Sexual and Gender Dissent. Chicago: U of Chicago, 2001.
Kotkin, Stephen. Stalin: Volume I: Paradoxes of Power, 1878-1928. N.p.: Penguin, 2014.
Malmstad, John E. e N. A. Bogomolov. Mikhail Kuzmin: A Life in Art. Cambridge, MA: Harvard UP, 1999.
Medvedev, Roy Aleksandrovich. Let History Judge: The Origins and Consequences of Stalinism. New York: Knopf, 1971.
Meyendorff, Baron Alexander. “My Cousin, Foreign Commissar Chicherin.” Russian Review 30.2 (1971), p. 173-178.
Poole, DeWitt C., Lorraine M. Lees, e William S. Rodner. An American Diplomat in Bolshevik Russia. Madison, WI: U of Wisconsin, 2014.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Manifesto sobre o crescimento do feminismo radical

As opressões dividem o movimento. Um exemplo explícito disso é a tese, defendida de forma velada ou aberta, que existe um antagonismo entre a luta das pessoas trans e a luta das mulheres. O que mais me assusta é que o feminismo radical está crescendo justamente a partir dessa tese.

Transfobia, uma ideologia a serviço da classe dominante

Eu tenho acordo com várias das teses feministas radicais, aliás, mais acordo do que tenho com a teoria queer. Por exemplo, explicando de forma bem rasa, é óbvio que o machismo estrutural (ou o patriarcado) surgiu na sociedade para que os homens (“cis”) pudessem controlar a reprodução e até a própria vida das mulheres (“cis”). Entretanto, cabe aqui dizer que, desde o surgimento da propriedade privada, ela foi proibida para pessoas “trans” (ou seja, que assumiam papel de gênero oposto ao sexo biológico, inclusive no próprio nome). Estas ficaram restritas aos espaços religiosos (em especial as mulheres trans, que normalmente eram sacerdotisas que cultuavam as deusas). Mais tarde elas também foram expulsas destes para ficarem restritas à prostituição.

É neste ponto que fica evidente o caráter reacionário da transfobia enquanto ideologia da classe social dominante. As pessoas trans são vítimas do mesmo machismo que atinge as mulheres em geral, mesmo que de forma distinta. Os homens trans são frequentemente vítimas de estupros corretivos dentro da própria família. Para terem sua identidade reconhecida, são obrigados pela sociedade, principalmente pela medicina, a terem uma postura vista como de “macho”, o que significa reproduzir o machismo ou mesmo “brigar como homem” (o que os expõe à violência). As mulheres trans e as travestis, por sua vez, são constantes vítimas de objetificação sexual, fetichização, exotificação, assédios e estupros.

A restrição dos direitos mais básicos das pessoas trans (direito à educação, ao emprego, ao uso dos banheiros públicos, ao próprio nome, à vida) servem à manutenção do sistema. Ela serve muito à medicina, que pode vender o acesso a esses direitos através de uma valiosíssima mercadoria: o processo de transição. Esse processo, que deveria ser um direito, tem o mesmo preço de uma casa própria. Também aos fundamentalistas religiosos, que ganham muito poder político e econômico a partir da LGBTfobia. E, evidentemente, também é necessária para a manutenção do machismo.

Quem defende a "reforma" dos gêneros?

Este cartaz, criado por feministas radicais, mostra a
visão que os direitos das mulheres (cis) são "coletivos",
"materialistas" e "revolucionários" enquanto
os direitos das pessoas trans são "individualistas",
"idealistas" e "reformistas".
O feminismo radical afirma lutar pelo fim dos gêneros. Por conta disso, muitas feministas radicais afirmam que defender o direito à identidade de gênero tem um caráter reacionário porque supostamente se opõe ao fim dos gêneros, propondo apenas uma "reforma".

Não devemos ter fetiche pelo gênero. O marxismo revolucionário sempre defendeu a necessidade de destruir todas as instituições que servem à manutenção do status quo e de construir uma nova sociedade que não tenha nenhum espaço pra qualquer tipo de opressão e exploração. Por outro lado, é um tremendo equívoco tentar defender que a revolução é antagônica à luta por reformas. Se somos pelo fim da exploração e do trabalho assalariado, isso nos impede de lutar por melhores salários? Ora, a história demonstra o contrário: revoluções não acontecem porque as trabalhadoras e trabalhadores querem o fim dos salários, mas sim porque querem melhores salários, porque querem pão, paz e terra.

Não é absurdo que uma pessoa de esquerda defenda que não devemos lutar pelos direitos nem por melhores salários, mas por conselhos populares e pelo poder? Não é absurdo que essa pessoa diga que lutar por melhores salários é reacionária porque ajuda a manter o trabalho assalariado? Ora, é igualmente absurdo que alguém defenda que não devemos lutar pelo direito ao nome social e à identidade de gênero, mas sim pelo fim do gênero.

Entretanto, o movimento feminista (inclusive a vertente radical) luta e sempre lutou por reformas como direito ao aborto, que o trabalho doméstico não seja restrito às mulheres, por medidas de punição à violência machista e proteção às vítimas (no sentido da lei Maria da Penha). Não há absolutamente nenhuma diferença de caráter entre essas medidas e as medidas defendidas pelo movimento trans: todas elas denunciam as diferenças de gênero na nossa sociedade e propõem medidas concretas para combatê-las.

Ainda mais absurda é a tese que as demandas do movimento trans são individualistas. Se o direito ao aborto é social, por que o direito ao próprio nome seria individual?

Teoria queer versus movimento trans 

Pichação de uma feminista radical transfóbica num
banheiro feminino da Unicamp.
Contra o que (ou quem) elas estão lutando?
Muitas feministas radicais afirmam que o movimento trans é pós-moderno e que lutam contra isso. Tal afirmação é absurda. Ora, foram os movimentos de travestis e transexuais na América Latina que lutaram e conquistaram a aprovação de leis de identidade de gênero no Uruguai e na Argentina, leis estas que, na prática, defendem a desmercantilização do direito à identidade de gênero, tornando-a pública, gratuita e por autodeclaração. A partir dessa lei, o direito à mudança do nome e do sexo no registro civil e o acesso ao processo de transição não depende de aprovação médica. Enquanto isso, a Judith Butler, teórica queer mais conhecida, sugere que as pessoas tenham uma performatividade de gênero que rompa com os padrões em vez de lutar por reformas.

A teórica tem um mérito: ter elaborado uma teoria feminista (e também LGBT) que defende o direito à identidade de gênero. Suas elaborações, entretanto, não servem à luta política. Butler, assim como Foucault, não só nega a possibilidade de uma revolução social que visa eliminar as estruturas opressoras da sociedade, mas nega inclusive a possibilidade de reformas. A luta pelos direitos das pessoas oprimidas é negligenciada. O único tipo de luta política defendida pelo foucaultianismo são as formas de resistência próprias dos grupos sociais oprimidos (como uma "performatividade de gênero paródica"), sem qualquer tipo de organização coletiva que pense na transformação da sociedade como um todo.

Muito pelo contrário. A própria construção das frases nos livros dessa autora é feita de forma que a leitora não saiba exatamente o que aquela defende. Uma grande proporção das suas frases são perguntas. Entre as demais frases, várias delas começam com "Considere que..." ou "Alguém poderia sugerir que...". Dentro da esquerda, isso tem um nome: centrismo. Aliás, esse é o centrismo do mais absurdo, aquele que embarca na onda pós-moderna que afirmar qualquer coisa é "produzir verdades" e que isso é moralmente ruim. Ora, um movimento não pode sequer existir sem afirmar que existem injustiças no mundo e sem afirmar as medidas concretas que são necessárias para combater as desigualdades.

Não é a teoria queer, nem qualquer teoria pós-moderna que leva o movimento trans a lutar por seus direitos. Pelo contrário, são suas próprias condições de vida. Sendo assim, é o cúmulo da contradição que algumas feministas radicais se oponham politicamente aos direitos das pessoas trans em nome de um suposto combate à teoria queer. Não é contra nenhuma teoria que as feministas radicais transfóbicas estão lutando, mas sim contra nosso direito à existência.

domingo, 18 de outubro de 2015

Por que somos feministas marxistas?

[Texto publicado originalmente em https://feminismosemdemagogia.wordpress.com/2015/10/16/por-que-somos-feministas-marxistas/]


Nós somos feministas marxistas. Para nós, a luta contra todas as opressões precisa estar ligada à luta contra o capitalismo e vice-versa. A exploração e as diversas formas de opressão estão fortemente ligadas entre si. Por isso, não é possível acabar com qualquer forma de opressão nesse sistema que é fundamentado na exploração humana.

No sistema capitalista, não é o quanto você trabalha que determina o quanto você ganha. Isso é fundamentalmente verdade nos sistemas econômicos de muitas das sociedades nativas da América e da África, por exemplo. No nosso sistema econômico, pelo contrário, existe uma minoria que não recebe pelo próprio trabalho, mas sim pelo trabalho alheio.
É um absurdo lógico considerar que o trabalho de pessoas como Eike Batista, por exemplo, valha dezenas de milhares vezes mais que o trabalho de uma faxineira terceirizada. Entretanto, Eike Batista recebe dezenas de milhares vezes mais que ela porque não recebe pelo próprio trabalho e sim pelo trabalho alheio.

As opressões não surgiram no sistema capitalista. Entretanto, os patrões, que têm o interesse de garantir o maior lucro possível, se aproveitam da existência de setores oprimidos para pagar menos. Funciona assim: se o patrão precisa de alguém pra fazer faxina, pra quê ele vai pagar um bom salário e oferecer boas condições de trabalho se tem muitas mulheres na periferia (a maioria negras) que aceitam um salário baixo? Pagando um salário menor e oferecendo condições piores, ele lucra mais e sua empresa tem maior competitividade no mercado.

Existem vários métodos opressores que os patrões utilizam para lucrar mais. Por exemplo, demitindo trabalhadoras que provavelmente vão engravidar e não garantindo creches para as mães. Outro exemplo é o assédio moral, que é muito comum acontecer com todas as pessoas oprimidas (inclusive LGBTs, por exemplo), impondo pra elas um ritmo de trabalho mais acelerado.

No caso das pessoas trans, em especial das travestis, essa realidade se torna muito dramática. Essas são tão repudiadas que dificilmente encontram emprego no mercado formal, e, quando encontram, é nos trabalhos precarizados e são, muitas vezes, vítimas constantes de assédios. A maioria das pessoas não costuma ver travestis no seu dia a dia, mas tem pelo menos quatro lugares onde é possível encontrar muitas travestis: nas empresas de telemarketing (onde a vasta maioria é negra, feminina e LGBT), nos sites pornográficos, nas zonas de prostituição e nas prisões.

Além de tudo isso, no capitalismo, poder econômico também significa poder político. Os políticos que vencem as eleições são aqueles que recebem mais dinheiro para sua campanha política. Quem dá esse dinheiro são as empresas. Não é à toa que os políticos são quase todos homens, heterossexuais, brancos, cisgêneros, conservadores, LGBTfóbicos, machistas e racistas, afinal, eles refletem as características sociais e os interesses daqueles que bancaram financeiramente suas campanhas. Não é de se estranhar que exista uma grande bancada que defende os interesses do agronegócio, dos fundamentalistas religiosos e de diversos outros setores empresariais, sendo que não existe nenhuma bancada de mulheres e de pessoas negras, que são a vasta maioria da população?

Por tudo isso, na nossa opinião, só é possível acabar com as opressões se o sistema capitalista tiver um fim e der lugar para um sistema em que as pessoas mais exploradas e oprimidas tenham voz e poder real de decisão. Só é possível chegar a uma sociedade assim se houver uma revolução realizada pelas trabalhadoras e trabalhadores e que tenha a participação ativa dos diversos setores oprimidos da sociedade, o que só pode acontecer se toda forma de opressão for combatida. É isso que nós consideramos uma sociedade socialista e é por isso que lutamos.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A violência policial e a criminalização das travestis

Daniele, travesti encarcerada no Presídio do Róger
Após um golpe de Eduardo Cunha, a Câmara dos Deputados acaba de aprovar, em primeiro turno, a redução da maioridade para 16 anos para vários crimes. Acontece que a lei não funciona da mesma forma para todo mundo. Vivemos numa sociedade racista, em que as pessoas negras são tratadas como criminosas; vivemos numa sociedade machista, que culpabiliza as mulheres pela violência que sofrem; vivemos numa sociedade LGBTfóbica, em que os crimes de ódio contra LGBTs são naturalizados; vivemos numa sociedade travestifóbica, em que as travestis são criminalizadas por suas condições de vida.

Sem família, sem escola, sem emprego

Foi feita uma pesquisa com 498 pessoas trans de diversas regiões da Argentina [1]. O estudo revela dados de antes e depois da aprovação da Lei de Identidade de Gênero. Os dados apresentados se referem a antes da aprovação, uma vez que no Brasil essa lei (a Lei João Nery) não foi aprovada. Além disso, vou seguir a convenção de que travestis também são mulheres trans, como está na pesquisa.

O estudo afirma (p. 10):
São vários os relatos de situações de discriminação no âmbito familiar que desde a tenra idade tem levado à expulsão de suas casas ou migração a outras cidades. Em particular, as dificuldades com a família começam no momento em que as pessoas trans decidem viver conforme sua identidade de gênero. "A maioria de nós fomos expulsas de nossas casas ou fugimos com 11 ou 12 anos porque não aceitavam que nos vestíssemos de mulher."
Como consequência, 42% das mulheres trans (incluindo as travestis) e 43% dos homens trans foram isolados de familiares e amigos devido à sua identidade.
Foram mencionadas várias situações de exclusão e discriminação no âmbito educacional. As ridicularizações, o maltrato, o desamparo e a burocracia administrativa vinham tanto dos colegas quando do pessoal docente e diretores. [...] "Uma professora me deu um tapa porque queria que eu fosse jogar bola". Assim, são vários os testemunhos que relatam situações de abuso sexual e agressão física nos banheiros e da falta de ação por parte do pessoal docente para impedir essa situação. Essas experiências tiveram como consequência o abandono do sistema escolar majoritariamente no momento em que as pessoas trans começam o processo de construção de sua identidade. [...]

"Se você era mariquita, os colegas roubavam suas coisas, rasgavam suas roupas, lhe pegavam no recreio... Mijavam em cima de você... E nos banheiros... Os colegas lhe obrigavam a ter relações com eles e você fazia isso por medo".
Discriminação contra as meninas trans na escola (p. 28)
Discriminação contra os meninos trans na escola (p. 47)

21% das mulheres trans (p. 29) e 38% dos homens trans (p. 48) afirmaram que foram ridicularizados ou agredidos pelos professores. 21% das mulheres e 25% dos homens trans foram proibidos de usaram o banheiro. 34% das mulheres e 26% dos homens não tiveram seu nome social respeitado.

Como consequência de toda essa discriminação, 49% das mulheres e 47% dos homens abandonaram o sistema educacional. Entre as mulheres trans menores de 18 anos, metade delas não estava estudando.

O acesso ao mercado de trabalho formal também é bastante precário. Existem inúmeras barreiras para o acesso ao mercado de trabalho formal, sendo que este fica restrito a subempregos (como empregos terceirizados ou em empresas de telemarketing). 55% das mulheres (p. 32) e 52% dos homens trans (p. 51) afirmaram que tiveram um emprego negado. 25% das mulheres e 41% dos homens tiveram que deixar um emprego.

Discriminação contra os homens trans no trabalho (p.50)

Isso tudo faz com que a maioria das mulheres trans (incluindo as travestis) seja empurrada para a prostituição.

Pesquisa sobre quantas mulheres trans vivem ou já viveram em situação de prostituição (p. 31)

Mesmo após a aprovação da Lei de Identidade de Gênero, 61% das mulheres trans argentinas ainda estão em situação de prostituição.

A criminalização das travestis na prostituição


Segundo a pesquisa (p. 36):
A maioria das mulheres trans entrevistadas (79,5%) já foram detidas pelas forças de segurança em algum momento de suas vidas. Destas (n=355), 8 em cada 10 detenções foram por estar exercendo trabalho sexual e 6 em cada 10 por averiguação de antecedentes.
O quadro abaixo mostra as discriminações sofridas por essas mulheres por parte das forças de segurança enquanto estavam detidas.

Violência policial contra as mulheres trans detidas (p. 37)


O estudo define como "abuso sexual" como uma relação sexual feita por um policial contra a vontade da vítima. Ou seja, é sinônimo de estupro. Isso significa que 43% das mulheres trans que foram detidas foram estupradas por um policial (antes da aprovação da lei). Ou seja, pelo menos 34% das mulheres trans já foram estupradas pela polícia. Isso nos leva a suspeitar que um motivo comum para os policiais deterem as travestis é para que eles possam abusar sexualmente delas. De fato, alguns relatos mostram isso: algumas travestis relatam que não reagiram ao estupro por medo de serem presas, outras são abusadas dentro das prisões pelos policiais ou pelos outros presos.

Violência policial contra os homens trans detidos (p. 55)

Para suportar o sofrimento, em especial na prostituição, muitas travestis recorrem ao uso de drogas. Em um estudo feito em Uberlândia, MG [2] 85,5% das travestis em situação de prostituição afirmaram usar álcool e 72,7% afirmaram usar outros tipos de drogas, sendo cigarro comum, cocaína e maconha as mais frequentes. Quando questionadas se elas são ou não dependentes, a maioria delas afirma que, se um dia saírem da “batalha” (isto é, do trabalho sexual) deixariam de usar drogas. Também existem muitas travestis que vendem drogas como uma alternativa de renda. O uso frequente de drogas e também a venda por parte das travestis criam mais uma forma de chantagem por parte da polícia e também as leva a serem criminalizadas.

Como consequência disso, a concentração de travestis nas prisões é maior do que na sociedade. Estima-se que na sociedade brasileira existe cerca de uma pessoa trans a cada 2500 habitantes, a grande maioria delas travestis [3]. Entretanto, no Presídio do Róger, existe uma travesti para cada 128 presos. No  Presídio Central de Porto Alegre, existem 32 travestis e 4 mil presos no total, ou seja, uma travesti para cada 125 presos. É raro encontrar uma travesti numa universidade, mas é muito comum encontrar mais de uma travesti numa penitenciária.

Como a mídia distorce os fatos


Valéria, travesti da Zorra Total, retratada como
promíscua e histérica, o estereótipo de uma travesti
Em um bairro ou uma rua onde existem muitas travestis prostitutas, é muito comum aparecer algum homem de carro para ridicularizar, xingar, brigar ou agredir as travestis. Nestes casos, as travestis reagem: xingam, brigam, agridem de volta. É assim que elas se defendem. Afinal, elas precisam se defender, caso contrário não vão conseguir atender os clientes. Frequentemente atiram pedras nas travestis.


A mídia, entretanto, sempre mostra as travestis como se fossem barraqueiras e encrenqueiras sem motivo nenhum. Como se nós, travestis, fôssemos "naturalmente" promíscuas, violentas, loucas, histéricas, criminosas. Em outros casos, a mídia nos mostra como se fôssemos piada. Isso acontece no Zorra Total e na Praça é Nossa, mas também aparece em muitas notícias. Por mais absurdo que isso seja, muitas travestis que foram vítimas de clientes que não quiseram pagar ou então vítimas de estupro são mostradas nas notícias como se o caso fosse uma piada!

É verdade que as travestis, muitas vezes, abusam da violência e reproduzem o preconceito, mas a mídia quase sempre distorce a realidade e mostra as travestis como sendo única e exclusivamente como piadas ou como criminosas, raramente são retratadas como vítimas.

Como o governo trata as travestis?

Como o orçamento do governo federal é gasto
Diante de toda essa realidade, o governo federal fez vários ataques aos direitos das pessoas trans. A começar pelas MPs 664 e 665 da Dilma, que atacam os direitos trabalhistas das pessoas que têm mais dificuldade de acesso ao emprego e menor estabilidade. Esse é o caso das pessoas trans, que estão nos postos mais precarizados, quando não estão fora do mercado de trabalho formal. Outro ataque é o PL 4330, que visa expandir a terceirização, o que significa uma precarização ainda maior do emprego. Além disso, ainda foram realizados vários cortes na educação e na saúde. Isso tudo é o chamado "ajuste fiscal".

A bancada fundamentalista, que também defende o "ajuste fiscal" quer transformar as LGBTs no bode expiatório para todos esses ataques. É por isso que o Feliciano criou um projeto de lei que visa revogar uma portaria lançada recentemente defendendo os direitos básicos das pessoas trans na educação: o direito ao nome social, uso dos uniformes e dos banheiros conforme a identidade de gênero. É por isso que a bancada fundamentalista alterou a lei que criminaliza o feminicídio para que as mulheres trans não fossem contempladas por essa lei. É por isso que estão retirando e até proibindo os debates sobre gênero, identidade de gênero e orientação sexual nas escolas. Para ganhar o apoio do povo, os fundamentalistas estão fazendo uma campanha de difamação contra as travestis, como a Verônica, a Viviany, entre outros, tudo isso em nome do combate a uma suposta "ideologia de gênero".

O projeto de redução da maioridade penal também tem esse objetivo. É evidente que o plano de ajuste fiscal vai causar muitas revoltas na população. Sendo assim, seja com a redução da maioridade penal, proposta pelos fundamentalistas, seja aumentando o tempo de reclusão dos jovens na Fundação Casa, proposta do PSDB e defendida pelo PT, tudo isso tem um único objetivo: garantir que o plano de ajuste fiscal seja aplicado e que todo o caos social gerado por ele seja "contido" não com mais investimento nas áreas sociais, mas sim com o encarceramento da juventude.

- Aprovação da Lei João Nery já!
- Não à redução da maioridade penal!
- Fora Eduardo Cunha!

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ele ou ela? As gallae na Antiga Roma (texto do séc. I a.C.)

Estátua de Átis, em uma dança
num ritual de adoração
O poema abaixo, de Cattulus, século I a.C., é uma estória mitológica que envolve uma tradição sacerdotal na Frígia, no território romano. O poema mostra que tanto o gênero quanto a transgeneridade variam ao longo da história e mudam, em especial conforme as condições socioeconômicas da época, mas também de acordo com a ideologia dominante.

O texto foi traduzido de duas fontes (1, 2), com algumas diferenças que serão aqui ignoradas (considero que a 2 seja mais precisa, mas também mais confusa).

[Veja também o texto "Não fale de mim como se eu fosse uma mulher!, sobre um homem trans no século II].

Cattulus, Poema 63

Trazido em sua barca ágil através de oceanos profundos
Átis, quando ansiosamente alcançou o bosque da Frígia com seus pés ligeiros
e entrou nas moradas da deusa, sombrias, coroadas pela floresta;
lá, aguilhoado por uma furiosa loucura, desnorteado na mente,
ele arrancou de si com uma afiada pedra sílex a carga de seu membro.
Então, quando ela sentiu que os membros dela perderam sua masculinidade,
ainda com sangue fresco umedecendo a face da terra,
rapidamente ela pegou o leve tamboril com mãos brancas,
seu timbre, Cibele, seus mistérios, Mãe,
e agitando com os dedos moles o couro de boi oco
assim começou ela a cantar para suas companheiras, trêmula:
Estátua de uma galla
ou um gallus
"Venham vocês, gallae, vão para as florestas da montanha de Cibele juntas,
vão juntas, rebanho peregrino da senhora de Díndimo
que rapidamente buscam casas alheias como exiladas,
seguidas por minhas regras conforme eu as guio em meu trem,
suportaram a salmoura que flui rápido e os mares selvagens,
e descarregaram de seus corpos a aversão absoluta ao amor,
alegrem o coração de sua Senhora com rápida peregrinação.
Deixem o atraso enfadonho afastado de suas mentes; andem juntas, sigam
para a casa frígia de Cibele, para as florestas frígias da deusa,
onde o barulho dos címbalos soarem, onde os tamboris reecoarem,
onde o flautista frígio sopra uma nota profunda em seu caniço curvo,
onde as ménades com suas coroas de hera atiram suas cabeças violentamente,
onde com gritos estridentes elas chacoalham emblemas sagrados,
onde aquela comitiva peregrina da deusa está afeita a vaguear,
até onde é justo para nós acelerar com danças vivas."

Tão logo Átis, mulher, mas não de verdade, cantou assim para suas companheiras,
os foliões, de repente, com línguas tremulantes, gritaram alto,
os tamboris leves soam novamente, os címbalos ocos se colidem novamente,
rapidamente o tumulto, com seus pés apressados, vai ao verde Ida.
Então também Átis, frenética, ofegante, incerta, arfante,
sua líder, acompanhada pelos tamboris, peregrina pelas florestas escuras,
assim como uma novilha indomada correndo à parte do jugo de seu próprio fardo.
Rapidamente as gallae seguem sua líder com seus pés ligeiros.
Então, quando elas ganharam a case de Cibele, fatigadas e exaustas,
depois de muito trabalho elas descansam sem pão;
o sono pesado cobre seus olhos com o cansaço que as abate,
a loucura delirante de suas mentes se partem em sono leve.
Mas quando o sol com seus olhos radiantes de sua face dourada
iluminaram o céu límpido, das terras firmes, o mar selvagem,
e afugentou as sombras da noite com corcéis impacientes renovados, cavalgando,
então o Sono fugiu de Átis despertado e rapidamente se foi;
a deusa Pasitea recebeu ele (sic) em seu seio tremulante.
Então, depois do sono leve, livre da loucura violenta,
assem que o próprio Átis reviu em seu coração seu próprio dever,
e viu com a menta clara que mentira havia perdido e onde ele estava,
com a mente afluindo novamente ele se acelerou de volta para as ondas.
Ali, olhando sobre os mares vazios,
e então dirigiu-se com lamentos o país dela com voz chorosa:

"Ó, meu país que me deu vida! Ó, meu país que me gerou!
A quem deixo, toda desgraçada! Como servas fugitivas deixam seus mestres,
eu trouxe meu pé para as florestas de Ida,
para viver entre as neves e as tocas congeladas das feras selvagens,
e visitar no meu frenesi todas as tocas de espreita,
- Onde então ou em que região eu penso ser teu lugar, ó meu país?
Meus olhos há muito perdidos contemplam a ti
enquanto por um curto espaço minha mente fica livre da frenesi selvagem.
Eu, devo eu ser levada para longe de minha própria casa, para dentro dessas florestas?
Do meu país, dos meus bens, meus amigos, meu país, devo eu ficar longe?
Ausente do mercado, dos campos de batalha, do hipódromo, do campo de jogos?
Infeliz, de coração todo infeliz, de novo, de novo tu deves reclamar.
Pois que tipo de figura humana existe e que eu não poderia ser?
Eu, para ser uma mulher -- eu que era um rapaz, um jovem, um menino,
eu era a flor do campo de jogos, eu era uma vez a glória do palestra;
eram minhas as portas lotadas, meus eram os calorosos limiares,
minhas as guirlandas floridas que enfeitavam minha casa,
quando eu estava para deixar meu aposento ao raiar do dia.
Eu, como devo eu ser chamada agora? Uma serva dos deuses, uma ministra de Cibele?
Devo ser uma ménade, parte de mim, um homem estéril devo eu ser?
Eu, devo eu habitar em regiões cobertas de neve do verdejante Ida?
Passar a minha vida sob os altos cumes da Frígia,
com a corça que assombra a floresta, com o javali que percorre a floresta?
Agora, agora eu lamento meu dever, agora, agora eu gostaria que isso fosse desfeito."

Assim que estas palavras foram emitidas dos lábios rosados,
trazendo uma nova mensagem para as orelhas dos deuses,
então Cibele, afrouxando o laço apertado de seu leão,
aguilhoando aquele indivíduo do rebanho que ia para a esquerda, fala deste modo:
"Vem agora", diz ela, "venha, vai ferozmente, deixe a loucura caçá-lo
manda-o, portanto, pelo golpe da loucura, apressar-se para as florestas de novo
aquele que seria livre demais e fugiria da minha soberania.
Vem, chicoteia para trás com tua cauda, suporta tua própria flagelação,
faz tudo ao seu redor ressoar com um rugido retumbante,
sacode ferozmente sua juba avermelhada com seu musculoso pescoço."
Assim diz a furiosa Cibele, e com sua mão desprende o laço.
O monstro atiça sua coragem e desperta a fúria de seu coração;
ele acelera, ele ruge, com passos largos ele quebra o matagal.
Mas quando ele veio às águas estendidas da costa branca reluzente,
e viu o gentil Átis pelos terrenos planos do mar,
ele corre na direção dele - Átis se voa loucamente para a floresta selvagem
lá para todo o resto de sua vida ele foi uma serva.
Deusa, grande deusa, Cibele, senhora de Díndimo,
esteja toda tua fúria longe de minha casa, ó minha rainha
que outros conduzam a ti em frenesi, outros levem tu à loucura.

Quem eram as gallae?

Relevo funerário de um archigallus
As gallae eram sacerdotisas que adoravam a deusa Cibele, conhecida como "Mãe dos Deuses", deusa da natureza, e Átis, seu/sua cônjuge. Uma sacerdotisa era chamada de galla (feminino) em vez de gallus (masculino) para denotar que a castração já foi realizada. O poema mostra como a galla era destinada ao papel de sacerdotisa, como uma "falsa mulher", para o resto de sua vida. Elas usavam vestes femininas, cabelos longos e eram castradas [Antologia Grega, 219, 220, 234], além de usarem pingentes, brincos e maquiagem pesada [fonte]. Átis é sempre retratado como uma divindade inferior a Cibele, como no poema, em que Átis é sacerdote ou sacerdotisa de Cibele. A mitologia sobre a castração de Átis era usada como justificativa para a castração no ritual de adoração de Cibele e Átis.

Cibele era uma divindade oficial do Império Romano que era bastante adorada, mas apenas os "galli" eram celebrantes oficiais, reconhecidas e financiadas pelo império desde 204 a.C. Apesar disso, os cidadãos romanos eram proibidos de se tornarem gallae, uma vez que elas eram vistas como "homens" que deliberadamente abriam mão de sua fertilidade e de sua masculinidade. O Império as via como maus exemplos para os cidadãos. As gallae eram frequentemente chamadas de pathicus (lascivo), mollis (mole, delicado) ou cinaedus (termo usado para homens adultos com comportamento afeminado ou que gostavam de ser penetrados). Apenas estrangeiros (que eram vistos como inferiores aos romanos) poderiam exercer este papel.

No final do século I, a castração foi proibida pelo império. Mais tarde, o cristianismo se utilizou dos galli para demonizar a religião pagã pela prostituição feminina e pela "sodomia" (sexo anal), como parte da campanha ideológica para a criminalização da "sodomia" (tornou-se crime um homem ser penetrado por outro no século IV, no século VI um homem que penetrasse outro homem também passou a ser considerado criminoso).

O jurista romano Ulpiano descreveu 5 tipos de vestes romanas:
  1. Vestimenta virilia, a roupa do paterfamilias, do pai e chefe da família;
  2. Muliebria, a roupa da materfamilias, a mãe da família;
  3. Puerilia, a roupa das crianças, dos e das menores de idade;
  4. Communia, as vestes comuns usadas tanto por cidadãos como por cidadãs;
  5. Familiarica, a roupa da familia, ou seja, de servas, servos, escravas e escravos.
Um plebeu, uma mulher romana e um senador [fonte]
Ulpiano não distingue o nome dado às roupas das crianças e das servas ou servos por gênero. Apenas da mãe e do pai. Segundo Ulpiano, um homem que usa roupas femininas seria objeto de escárnio. Entre as mulheres, apenas as prostitutas usavam roupas masculinas.

Sendo assim, as vestes estavam ligadas diretamente ao papel das pessoas dentro da família e também sua classe social: o pai, chefe da família, que administrava a propriedade privada; a mãe, cujo papel era reproduzir e gerar herdeiros para as propriedades; as crianças, que eram herdeiras das propriedades (sejam meninos ou meninas); e as pessoas das outras classes (não-cidadãs), que não tinham ou que eram propriedade privada.

Qual é, portanto, o "escárnio" para um homem? Vestir uma roupa da mulher cidadã, quem não era chefe da família, que não tinha direito a administrar nem mesmo a sua própria propriedade privada (a não ser que não tivesse pai ou marido). Vestir a roupa de quem exercia o papel reprodutivo, limitada à esfera privada.

É por isso que as gallae não se viam nem eram vistas como mulheres, no máximo eram vistas como "falsas mulheres". Por mais que quisessem, por mais que tentassem, não conseguiriram exercer o papel social de uma mulher cidadã. Uma galla poderia se tornar sacerdotisa ou prostituta, mas não poderia ser uma materfamilias. Por causa disso, eu acredito que não existiam condições socioeconômicas para que a identidade transgênera pudesse existir socialmente.

[Observação: Pode ser que tenha sido possível a existência de uma identidade transgênera masculina, como a de Megillus, em cidades gregas onde a mulher poderia se tornar a chefe da família, mas acredito que, mesmo assim, eram casos isolados. Vale notar que mesmo a identidade masculina de Megillus na estória era privada, não social.]